Professor Muhammad Yunus e o “Negócio Social”

2009 June 1

Este artigo vem a propósito de um livro que comecei a ler recentemente de título “Criar um mundo sem pobreza”, de Muhammad Yunus, o vencedor do prémio Nobel da paz em 2006 (entre outros feitos notáveis).

É engraçado, estive também recentemente (por acaso já faz quase um mês) numa reunião de família (por acaso não era propriamente a minha família mas é quase) em S. Pedro de Moel, num acampamento; No primeiro dia, uma sexta-feira eu e mais pessoal fixe fomos sair e encontrámos um bar na praia… Era uma festa de anos de certeza porque até tinha um bolo e tudo, mas o pessoal da festa de anos nem teve objecções nenhumas, receberam-nos de braços abertos, deixaram-nos tomar conta da festa, deixaram-me meter música (yup, DJ por 2 horas xD), deixaram-nos ir para trás do balcão preparar as nossas próprias poções mágicas, e não nos deixaram pagar nada. Grande bar não é ? Tomara que os outros todos fossem assim xD…

O que me espantou realmente foi quando no meio de uma conversa com o responsável pelo bar, eu perguntei “Olha lá vocês abrem o bar amanhã ?” e ele respondeu-me “Epah não sei acho que não… Isto não é assim tão rentável…”
E eu obviamente comecei a rir-me dele por dentro lol… [Haha claro como é que querias que isto fosse rentável a ofereceres tudo a todos pah ?]…. Mas olhem que tem toda a lógica o que ele fez, e fez melhor do que nos cobrar por tudo… Lendo o resto do artigo já percebem porquê…

A Pobreza e a Desigualdade

O Professor Muhammad Yunus no seu recente livro “Criar um mundo sem pobreza”, alerta para um problema em toda a teoria económica que nos têm transmitido nos livros, nas universidades e em todos os lados: O homem não é um ser uni dimensional, não tem só o desejo de maximizar o lucro. E graças a deus, porque se assim fosse então o mundo seria um sítio feio!

E realmente o senhor professor tem razão; Se o objectivo de todos nós fosse apenas maximizar o lucro, então nenhuma empresa teria preocupações sociais, nenhum de nós oferecia brinquedos aos órfãos no natal, e não haviam de existir ONGs… Seria um mundo “Eu por mim e cada um por si”.

Certamente que seria um mundo muito mais desigual do que o mundo em que vivemos actualmente. A título de exemplo, recomendo vivamente que visitem este artigo para uma série de gráficos com as disparidades entre o rendimento, a educação, mortalidade infantil entre outras no mundo. Eis uma delas:

Como podemos observar no gráfico, nos países industrializados 99% (talvez 99.9% ou 100%) das crianças frequentam o ensino secundário e em África abaixo do Sahara, justamente de onde eu venho, apenas 24% (não sei se vejo muito bem) das crianças têm acesso ao ensino secundário… O ensino secundário que está prestes a ser o ensino obrigatório em Portugal… Eu tive a sorte de poder acabar o ensino secundário e meter-me numa das melhores escolas de Economia e Gestão da Europa, mas eu estou em apenas 25% das crianças…

Notem também o seguinte extrato:

Por ano gastam-se 11 biliões de dólares em gelados na Europa. A expansão da educação básica a todos custaria 6 biliões de dólares;
Cerca de 2milhões de crianças morreram na última década em resultado directo de conflitos armados.
Um terço da população mundial sustenta-se com menos de dois dólares por dia.
160 Milhões de crianças estão moderada ou gravemente subnutridas e 100milhões não recebem educação primária.

Na noite em que o responsável pelo bar não nos deixou pagar nada e acolheu-nos de braços abertos, foi sem dúvidas uma granda noite para nós, porque nos divertimos muito, mas ainda mais para o responsável pelo bar porque deve ter tido aquela sensação grandiosa de quem provocou alegria… E este é um exemplo pequeno porque o verdadeiro altruísmo pode ser muito mais abrangente.

O que o Professor Muhammad Yunus sugere é que se use o poder do mercado livre canalizado para reduzir a pobreza no mundo e a desigualdade social.

Os novos activos e o novo modelo de negócios

Como já vimos anteriormente, o principal objectivo do homem como agente económico pode ser maximizar o lucro, mas não é certamente o único objectivo. Faz parte da nossa natureza também nos preocuparmos com os outros (uns mais, outros menos… mas todos nos preocupamos com alguém no mundo…).

O que o Professor Muhammad Yunus sugere é a criação de um novo modelo de negócios, chamado Negócio Social, que se opõe ao Negócio que Maximiza o Lucro. Ambos são maneiras de gerir uma empresa, têm objectivos diferentes, estratégias diferentes e remunerações diferentes. Eis as diferenças:

  1. O negócio social tem como objectivo Maximizar o Bem Social, e não maximizar o lucro;
  2. A remuneração do negócio social é o bem que é feito à sociedade, os accionistas escolhem comprar acções das empresas que vão fazer o melhor a mais indivíduos, e ficarão felizes por saber que fizeram milhares de pessoas felizes, opondo-se ao negócio que maximiza o lucro, cuja remuneração é o capital, que faz os accionistas felizes porque já vão poder comprar aquele Bentley novo…
  3. Um negócio que maximiza o lucro não distribui dividendos, já que o objectivo não é sequer gerar dividendo; O objectivo é apenas gerar o capital necessário para a própria expansão da empresa de modo a poder ajudar mais pessoas desfavorecidas;
  4. Um negócio que maximiza o lucro não tem quaisquer capitais próprios no balanço; Pode ter no início, mas visa retornar o capital investido pelos accionistas ao fim de certo tempo, e ser uma empresa autónoma, capaz de funcionar e se expandir por si própria;

Estas são só algumas das diferenças, se quiserem saber mais (e mesmo se não quiserem) sobre o Negócio Social sugiro fortemente que leiam o livro “Criar um Mundo sem Pobreza” do Professor Muhammad Yunus.

É genial não é ?

Por acaso encontrei algumas falhas no algoritmo da teoria do Professor Muhammad Yunus, mas no geral acho que é uma ideia genial; Acho e espero que esta ideia venha tomar conta dos mercados nos próximos tempos. Muhammad Yunus tem frases engraçadas no seu website do tipo “Vamos acabar com a pobreza no mundo e em 2030 vamos construir um museu da pobreza a começar no Bangladesh” entre outras…

Segundo o Professor Muhammad Yunus, os Negócios Sociais podem competir perfeitamente com os negócios que maximizam o lucro, oferecendo produtos semelhantes, talvez de qualidade e preço mais acessíveis para beneficiar a maioria, e o consumidor deve optar por produtos do tipo papel higiénico XPTO com 5 milímetros de espessura, bonequinhos às cores e que toca música à medida que o vamos desenrolando, ou pelo papel higiénico modesto, branco, normal e de qualidade perfeitamente aceitável, e de preço normal…

Os negócios sociais não têm como objectivo apenas auto-sustentar-se e oferecer bens a preços acessíveis, têm também como objectivo fazer coisas bonitas como construir escolas e hospitais, tudo o que puderem…

Digam-me lá se fomentar os negócios sociais não é realmente a melhor maneira de desenvolver um país…

Cá para mim a democracia não tem um grande papel se não tivermos uma sociedade com índice de desenvolvimento humano alto… Qual é a diferença entre ter um governo imposto e ter um governo que vence as eleições por ter a melhor campanha eleitoral ? A campanha eleitoral devia ter um papel menor nas eleições… A persuasão não devia ser um factor do sucesso porque ninguém com nível de escolaridade e desenvolvimento intelectual decente se devia deixar persuadir… Essa coisa de andar a dar beijinhos às velhas na rua é triste… E o mais triste é que dá votos…

Recomendo mesmo vivamente uma leitura aos dois livros do Professor Muhammad Yunus, “O Banqueiro dos Pobres” que foi best seller há pouco tempo e o tornou famoso, e “Criar um Mundo Sem Pobreza”, que estou a ler agora e a achar sem dúvidas genial…

Abstract

Sei que o Abstract é a primeira coisa que vem num relatório, mas primeiro isto não é um relatório e segundo acho que havia de dificultar o entendimento do que quis dizer no artigo… Mas básicamente é o seguinte…….

O Homem não tem como único objectivo maximizar os seus lucros, alguns deles têm mas abdicam da felicidade para isso e temos todos a certeza de que não queremos ir por aí…

O Homem como agente económico é remunerado por capital e por felicidade, cada um define em que proporções quer ser remunerado e há realmente nas nossas carreiras profissionais um trade-of entre capital e felicidade; Fazer milhões para podermos gastar ou fazer o bem a todos ?

Escolhendo ser remunerado pela felicidade, o Homem vai morrer feliz sabendo que fez o bem; Fez crianças sorrir, fez pais poderem dar alimentos saúde e educação aos filhos, entre outros.

Os negócios sociais têm um potencial incrível para desenvolver um país, e não está a ser aproveitado ao máximo na maior parte dos países do mundo.

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5 respostas deixe uma →
  1. Luana permalink

    2009 October 17

    JJ – tenho grande esperança de que os grandes empresários comecem a ver os negócios de forma diferente. Gerir um negócio pensando no bem estar das pessoas é a melhor maneira de perpetuá-lo, pois as pessoas terão mais condições de consumir e isso virará uma grande roda virtuosa…

    • 2009 October 19

      Concordo Luana, também o espero e é nesse sentido que escrevi este post… Fico contente que o tenhas lido, só é pena que a maioria das pessoas tenham desistido ao olhar para ele, por ser um bocado grande lol… Talvez tivesse mais impacto uma coisa mais pequena… vou procurar outra forma de promover estas idéias ;)

  2. 2009 October 24

    Sim, provavelmente por isso e

  3. Rómulo permalink

    2009 November 21

    Ando aqui a passear pelo teu blog. Tá muita fixe xD! Parabéns.
    Já conhecia este senhor e as suas ideias, mas nunca li o livro, e têm o seu lado interessante.
    Mas quando dizes: “Seria um mundo “Eu por mim e cada um por si” Certamente que seria um mundo muito mais desigual do que o mundo em que vivemos actualmente”, a verdade é que é mesmo isso que acontece!

    Não te esqueças dos ensinamentos de Adam Smith, Pai da Economia Moderna.

    “Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens”
    Adam Smith

    Estas ideias são interessantes, mas isto não acabará com a probreza – é apenas uma ajuda – o que acabará com a pobreza não é mais do que a sepultura das ideias keynesianas que nos recheiam de inflação e bolhas e o fim das burocracias no terceiro mundo.
    Há um livro do Hernando Soto, O Mistério do Capital, que te recomendo, em que ele mostra que o grande problema não é a falta de ajuda aos pvd, mas sim a corrupção interna desses países e na desorganização burocrática. O problema dos países pobres não é o capitalismo desumano do “cada um por si”, mas sim o facto deste não poder ser feito em condições viáveis. O montante de aforro dos pobres nos pvd é 40 vezes a totalidade da ajuda externa de todo o mundo desde 1945.No Haiti, a mais deprimida das nações latino-americanas, o total dos activos dos pobres é 150 vezes maior do que todo o investimento estrangeiro recebido desde 1804 (independência). Se os EUA aumentassem as verbas destinadas à ajuda externa para o nível recomendado pelas Nações Unidas – 0,7 % do rendimento nacional – o país mais rico do planeta demoraria mais de 150 anos para transferir para os pobres do mundo recursos idênticos àqueles que eles já possuem.
    O problema é que estes recursos já existentes são detidos de forma defeituosa: casas construídas em terrenos cujos direitos de propriedade estao inadequadamente definidos, sociedades comerciais irregulares onde a responsabilidade nao se encontra definida, industrias localizadas onde os financiadores e investidores nao as podem ver. Os pobres posseum casas sem titulos de propriedade, colhem o que semearam em terras sem escritura, empresas sem pactos sociais. Assim, porque os direitos sobre estas propriedades nao se encontram devidament documentados estes activos nao estao disponiveis para se converterem em capital e poderem ser transaccionados fora do estreito circulo comercial local onde as pessoas se conhcem e confiam umas nas outras, nao podem ser utilziados como garantias colaterias para a obtençao de emprestimos nem para desbloquear investimentos.

    Outro dado que me causa repulsa é que a UE e os EUA dão as suas ajudas financeiras aos países em desenvolvimento, enquanto usam politicas proteccionistas como a PAC e a Farm Bill que os empobrecem ao mesmo tempo.
    Alguns factos interessantes: cada produtor de bovinos na UE recebe 2 dls por dia o que e o dobro do rendimento de tres quartos da populaçao pobre que habita as zonas rurais dos paises em desenvolvimento; os subsidios americanos significam uma perda de 50 mil milhoes de euros por ano aos africanos, o que equivale ao valor das ajudas ao desenvolvimento provenientes dos paises ricos.
    E o mais giro é que o FMI aprova estas políticas proteccionistas que até eu, no primeiro ano do curso, sei que são nefastas para a economia.
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Fundo_Monet%C3%A1rio_Internacional#Assembleia_de_Governadores
    basta ir aqui a wikipedia pra se ver como funciona o FMI; 10 países têm 55% do poder de decisão, enquanto o dinheiro de financiamento é proveniente dos 185 países-membros; o FMI apoiou ditaduras militares quando lhe deu jeito; etc etc…enfim até as nossas organizações ditas supra-nacionais s

    Abraço!
    Não escrevo mais porque senão depois ninguém se dá ao trabalho de ler xD

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