Professor Muhammad Yunus e o “Negócio Social”

Este artigo vem a propósito de um livro que comecei a ler recentemente de título “Criar um mundo sem pobreza”, de Muhammad Yunus, o vencedor do prémio Nobel da paz em 2006 (entre outros feitos notáveis).

É engraçado, estive também recentemente (por acaso já faz quase um mês) numa reunião de família (por acaso não era propriamente a minha família mas é quase) em S. Pedro de Moel, num acampamento; No primeiro dia, uma sexta-feira eu e mais pessoal fixe fomos sair e encontrámos um bar na praia… Era uma festa de anos de certeza porque até tinha um bolo e tudo, mas o pessoal da festa de anos nem teve objecções nenhumas, receberam-nos de braços abertos, deixaram-nos tomar conta da festa, deixaram-me meter música (yup, DJ por 2 horas xD), deixaram-nos ir para trás do balcão preparar as nossas próprias poções mágicas, e não nos deixaram pagar nada. Grande bar não é ? Tomara que os outros todos fossem assim xD…

O que me espantou realmente foi quando no meio de uma conversa com o responsável pelo bar, eu perguntei “Olha lá vocês abrem o bar amanhã ?” e ele respondeu-me “Epah não sei acho que não… Isto não é assim tão rentável…”
E eu obviamente comecei a rir-me dele por dentro lol… [Haha claro como é que querias que isto fosse rentável a ofereceres tudo a todos pah ?]…. Mas olhem que tem toda a lógica o que ele fez, e fez melhor do que nos cobrar por tudo… Lendo o resto do artigo já percebem porquê…

A Pobreza e a Desigualdade

O Professor Muhammad Yunus no seu recente livro “Criar um mundo sem pobreza”, alerta para um problema em toda a teoria económica que nos têm transmitido nos livros, nas universidades e em todos os lados: O homem não é um ser uni dimensional, não tem só o desejo de maximizar o lucro. E graças a deus, porque se assim fosse então o mundo seria um sítio feio!

E realmente o senhor professor tem razão; Se o objectivo de todos nós fosse apenas maximizar o lucro, então nenhuma empresa teria preocupações sociais, nenhum de nós oferecia brinquedos aos órfãos no natal, e não haviam de existir ONGs… Seria um mundo “Eu por mim e cada um por si”.

Certamente que seria um mundo muito mais desigual do que o mundo em que vivemos actualmente. A título de exemplo, recomendo vivamente que visitem este artigo para uma série de gráficos com as disparidades entre o rendimento, a educação, mortalidade infantil entre outras no mundo. Eis uma delas:

Como podemos observar no gráfico, nos países industrializados 99% (talvez 99.9% ou 100%) das crianças frequentam o ensino secundário e em África abaixo do Sahara, justamente de onde eu venho, apenas 24% (não sei se vejo muito bem) das crianças têm acesso ao ensino secundário… O ensino secundário que está prestes a ser o ensino obrigatório em Portugal… Eu tive a sorte de poder acabar o ensino secundário e meter-me numa das melhores escolas de Economia e Gestão da Europa, mas eu estou em apenas 25% das crianças…

Notem também o seguinte extrato:

Por ano gastam-se 11 biliões de dólares em gelados na Europa. A expansão da educação básica a todos custaria 6 biliões de dólares;
Cerca de 2milhões de crianças morreram na última década em resultado directo de conflitos armados.
Um terço da população mundial sustenta-se com menos de dois dólares por dia.
160 Milhões de crianças estão moderada ou gravemente subnutridas e 100milhões não recebem educação primária.

Na noite em que o responsável pelo bar não nos deixou pagar nada e acolheu-nos de braços abertos, foi sem dúvidas uma granda noite para nós, porque nos divertimos muito, mas ainda mais para o responsável pelo bar porque deve ter tido aquela sensação grandiosa de quem provocou alegria… E este é um exemplo pequeno porque o verdadeiro altruísmo pode ser muito mais abrangente.

O que o Professor Muhammad Yunus sugere é que se use o poder do mercado livre canalizado para reduzir a pobreza no mundo e a desigualdade social.

Os novos activos e o novo modelo de negócios

Como já vimos anteriormente, o principal objectivo do homem como agente económico pode ser maximizar o lucro, mas não é certamente o único objectivo. Faz parte da nossa natureza também nos preocuparmos com os outros (uns mais, outros menos… mas todos nos preocupamos com alguém no mundo…).

O que o Professor Muhammad Yunus sugere é a criação de um novo modelo de negócios, chamado Negócio Social, que se opõe ao Negócio que Maximiza o Lucro. Ambos são maneiras de gerir uma empresa, têm objectivos diferentes, estratégias diferentes e remunerações diferentes. Eis as diferenças:

  1. O negócio social tem como objectivo Maximizar o Bem Social, e não maximizar o lucro;
  2. A remuneração do negócio social é o bem que é feito à sociedade, os accionistas escolhem comprar acções das empresas que vão fazer o melhor a mais indivíduos, e ficarão felizes por saber que fizeram milhares de pessoas felizes, opondo-se ao negócio que maximiza o lucro, cuja remuneração é o capital, que faz os accionistas felizes porque já vão poder comprar aquele Bentley novo…
  3. Um negócio que maximiza o lucro não distribui dividendos, já que o objectivo não é sequer gerar dividendo; O objectivo é apenas gerar o capital necessário para a própria expansão da empresa de modo a poder ajudar mais pessoas desfavorecidas;
  4. Um negócio que maximiza o lucro não tem quaisquer capitais próprios no balanço; Pode ter no início, mas visa retornar o capital investido pelos accionistas ao fim de certo tempo, e ser uma empresa autónoma, capaz de funcionar e se expandir por si própria;

Estas são só algumas das diferenças, se quiserem saber mais (e mesmo se não quiserem) sobre o Negócio Social sugiro fortemente que leiam o livro “Criar um Mundo sem Pobreza” do Professor Muhammad Yunus.

É genial não é ?

Por acaso encontrei algumas falhas no algoritmo da teoria do Professor Muhammad Yunus, mas no geral acho que é uma ideia genial; Acho e espero que esta ideia venha tomar conta dos mercados nos próximos tempos. Muhammad Yunus tem frases engraçadas no seu website do tipo “Vamos acabar com a pobreza no mundo e em 2030 vamos construir um museu da pobreza a começar no Bangladesh” entre outras…

Segundo o Professor Muhammad Yunus, os Negócios Sociais podem competir perfeitamente com os negócios que maximizam o lucro, oferecendo produtos semelhantes, talvez de qualidade e preço mais acessíveis para beneficiar a maioria, e o consumidor deve optar por produtos do tipo papel higiénico XPTO com 5 milímetros de espessura, bonequinhos às cores e que toca música à medida que o vamos desenrolando, ou pelo papel higiénico modesto, branco, normal e de qualidade perfeitamente aceitável, e de preço normal…

Os negócios sociais não têm como objectivo apenas auto-sustentar-se e oferecer bens a preços acessíveis, têm também como objectivo fazer coisas bonitas como construir escolas e hospitais, tudo o que puderem…

Digam-me lá se fomentar os negócios sociais não é realmente a melhor maneira de desenvolver um país…

Cá para mim a democracia não tem um grande papel se não tivermos uma sociedade com índice de desenvolvimento humano alto… Qual é a diferença entre ter um governo imposto e ter um governo que vence as eleições por ter a melhor campanha eleitoral ? A campanha eleitoral devia ter um papel menor nas eleições… A persuasão não devia ser um factor do sucesso porque ninguém com nível de escolaridade e desenvolvimento intelectual decente se devia deixar persuadir… Essa coisa de andar a dar beijinhos às velhas na rua é triste… E o mais triste é que dá votos…

Recomendo mesmo vivamente uma leitura aos dois livros do Professor Muhammad Yunus, “O Banqueiro dos Pobres” que foi best seller há pouco tempo e o tornou famoso, e “Criar um Mundo Sem Pobreza”, que estou a ler agora e a achar sem dúvidas genial…

Abstract

Sei que o Abstract é a primeira coisa que vem num relatório, mas primeiro isto não é um relatório e segundo acho que havia de dificultar o entendimento do que quis dizer no artigo… Mas básicamente é o seguinte…….

O Homem não tem como único objectivo maximizar os seus lucros, alguns deles têm mas abdicam da felicidade para isso e temos todos a certeza de que não queremos ir por aí…

O Homem como agente económico é remunerado por capital e por felicidade, cada um define em que proporções quer ser remunerado e há realmente nas nossas carreiras profissionais um trade-of entre capital e felicidade; Fazer milhões para podermos gastar ou fazer o bem a todos ?

Escolhendo ser remunerado pela felicidade, o Homem vai morrer feliz sabendo que fez o bem; Fez crianças sorrir, fez pais poderem dar alimentos saúde e educação aos filhos, entre outros.

Os negócios sociais têm um potencial incrível para desenvolver um país, e não está a ser aproveitado ao máximo na maior parte dos países do mundo.